das cores

Quando eu tinha uns dez anos, as minhas amigas na escola tinham aqueles caderninhos de recordação, em que a gente respondia um questionário bem babaquinha. Quem passou a infância nos anos oitenta deve saber do que eu estou falando. Uma pergunta que de vez em quando aparecia era “cor da pele” (coisa que eu acho meio idiota, nem pelas possíveis implicações racistas, mas qual o sentido de perguntar algo que é tão visível?). E a resposta mais freqüente, independente da cor real da pele da pessoa, era “morena clara”. Me lembro da reação da minha amiga Val, preta pretíssima, ao ler as respostas no caderninho dela, onde até uma amiga nossa, indisfarçavelmente caucasiana - loira natural, olhos verdes - colocou “morena clara”. Ela leu tudo aquilo em voz alta, olhou bem pra gente, e disse: “meu… cês são tudo um bando de branquela azeda”.

Eu “convivo” com muitos americanos, por causa do Second Life, e acho engraçado como a gente trata essa questão de “raças” tão diferente dos gringos. Nem pela questão do racismo, mas do conceito de raças, a diferença (e a separação) entre negros e brancos. Eles tem aquele lance da “one drop rule”, em que te basta uma gota de sangue negro pra te jogar no gueto. Segundo essa classificação eu seria irremediavelmente negra, assim como a grandessíssima maioria dos brasileiros.

Acho isso uma bobagem tão grande. Tipo, você vai ignorar todas as suas outras etnias, todas as suas outras culturas? O problema não é ser preta. Eu sou preta. Mas sou muito índia e talvez um pouquinho branca também. Meu fenótipo é de cabocla, é obviamente misturado, apesar de ter muito mais de índio do que de qualquer outro bicho. Mas, me diz, por que isso tem que ser importante? Grandes merda. Caguei.

Numa nota completamente não relacionada, li nalgum lugar que humoristas no mundo inteiro estariam arrasados com a candidatura do Obama no lugar da Hillary. Por que é muito mais socialmente aceitável tirar uma com a cara da loira do que com a do preto.

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e outros gerúndios