de humani corporis fabrica

Tem esse meu amigo, que é muito querido, mas com quem eu falo só uma vez a cada inverno. Como é tão raro a gente se comunicar, estava procurando pelo menos uma novidade boa pra mandar no email… e tava complicado, por que num tá fácil pra ninguém, não é? Até que lembrei de dizer que estou me exercitando.

Parece banal, eu sei, e na verdade é. Não virei maratonista, não quebrei nenhum recorde. Só estou num programinha que intercala caminhada e corrida, até que eu consiga só correr - nada puxado, uma coisa meio devagar e sempre. Por que isso seria minimamente digno de nota, você pergunta? Caso me conheça, a resposta é bem óbvia; senão, explico. O caso é que eu não me chamo Danieli “balofa pride” Moreira à toa. Você sabe aquela aluna que nunca fez educação física na vida, que sempre tinha uma desculpa ou atestado? Muito prazer, esta é Danieli “couch potato” Moreira. Sabe aquela pessoa que nem assiste o futebol na TV, por que cansa só de olhar o esforço alheio? A própria, Danieli “fritas acompanha” Moreira. Eu até tive fases de lutar judô, kung fu, frequentar cadjimia, às vezes os três ao mesmo tempo. Mas essas coisas nunca vingavam, e eu sempre voltava pro sofá mais rápido do que você consegue dizer “condicionamento físico”. O que me faz pensar que dessa vez vai? Eu acho que é o motivo certo.

Explico. Pra começar, eu tenho certeza que pelo menos metade dos meus amigos leitores não está feliz com o próprio corpo. A maioria das pessoas não está, homens e mulheres. Eu pergunto é quantos de vocês realmente têm razão para estar descontente. IMC acima de 25 ou abaixo de 19? Só encontra roupa na Fofuxa’s Fashion, tudo capinha de botijão? Ou, pelo contrário tem que comprar calças em loja infantil, por que o PP é muito largo? Não? Então não precisa de paranóia. Você está bem. Sério.

Não tou falando que as pessoas devem deixar de se preocupar com a própria aparência. Não mesmo, na real eu sempre achei que esse negócio de “beleza interior” era invenionice de gente feia (e você pensa que é bonito ser feio?). Eu gosto de ver gente bonita na rua (e ver gente bonita no espelho) tanto quanto você. O problema é que essa coisa da aparência, em especial esse mito do “corpo perfeito”, da maneira como é, hoje, na sociedade ocidental, é uma coisa doente. Sabe aquele corpo perfeito da menina na capa de revista? Sabe aquela pele de pêssego, aqueles seios firmes, aquela cinturinha que você sempre quis? Nada daquilo existe.

Pra começar, essa gente que é capa de revista vive da própria aparência, então eles têm muito mais tempo e dinheiro do que qualquer um de nós para cuidar dela. Além disso, meu amigo, vou te contar um segredo: eu trabalhei um tempo com retoque de imagens, e posso afirmar que todas, absolutamente TODAS aquelas capas de revistas são extremamente photoshopadas. Não a maioria. Não um pouquinho. Todas, muito photoshopadas. Olha isso aqui pra entender do que eu estou falando. Espinhas e celulites são apagadas, peitos são aumentados, cinturas diminuídas. Os homens também não escapam, a gente tira o pânceps, define os músculos, até aumenta a mala. O dito “padrão de beleza” é mantido num parâmetro inatingível, pra que você, meu amigo e minha amiga, gente normal como eu, se ache mais feio que um absorvente usado. Por que? Por que tem toda uma indústria que lucra com isso. Compra esse creme, que vai acabar com a sua celulite em um mês. Leva essa revista, que tem todos os exercícios que as celebridades usam pra ficar em forma. Olha esse livro, com a todos os truques pra emagrecer e ficar linda. E por aí vai. Te digo que faltou uma unha pra eu desenvolver um transtorno alimentar mais grave, quando eu era mais nova… mas enfim. O fato é que, por conta disso tudo, eu criei repulsa dessa coisa do culto ao corpo. Falava até com certo orgulho sobre isso de nunca fazer exercício. Danieli “balofa pride” Moreira.

Porém, é claro, sempre tem um porém.

O lance é que o corpo humano foi feito pra fazer esforço. Esforço físico, que fique claro. Os nossos ancestrais eram obrigados a fazer esforço para garantir a própria sobrevivência, nós ganhamos a vida sentados na frente de um computador. É preciso procurar outras fontes de esforço, simplesmente pra garantir que o corpo funcione apropriadamente. Não é pra ser atleta. Não é pra ser modelo. Você precisa se mexer simplesmente para o corpo funcionar. E é por isso que a gente precisa de atividade física.
É claro que você não iria encontrar um neandertal correndo 30 minutos por dia na esteira de osso e pele de mamute. Mas, me diz, quando foi a última vez que você correu 30 minutos com uma lança na mão atrás de um gnu? Ok, um pouco mais contemporâneo: quando foi a última vez que você pegou numa enxada? Pois é, meu amigo, pois é.

“Mas eu não faço exercício e vivo muito bem”. Você acha? Eu também achava. Mesmo sem conseguir subir dois lances de escada sem perder o fôlego, eu achava que vivia bem. Mesmo sem conseguir correr atrás do ônibus, eu achava que vivia bem. Mesmo com um hemograma de dar vergonha pra alguém da minha idade, eu achava que vivia bem. Mesmo com a capacidade pulmonar de um velhinho de 70 anos, eu achava que vivia bem. Mesmo morrendo de frio com o sol brilhando lá fora, meus dedos quase caindo congelados (por que sedentarismo e problemas de circulação andam juntos), eu achava que vivia bem. Você talvez viva bem, mesmo. Eu não. E é por isso que eu decidi praticar atividade física.

Deve fazer coisa de um mês, mas eu já sinto melhora. Muita. A circulação anda ótima, não sinto tanto frio, e o pouco de celulite que eu tinha já sumiu. Já consigo subir as escadas correndo. Já consigo correr atrás do ônibus, sem perder o fôlego nem sentir aquelas pontadas de dor no tronco. Me sinto disposta, não fico cansada e sonolenta o dia todo. Não virei maratonista, não quebrei nenhum recorde. Continuo fumando, continuo bebendo, comendo doce, fritura. Mas estou bem, fisicamente bem, bem como poucas vezes me senti na minha vida adulta.

2 Responses to “de humani corporis fabrica”

  1. Vitor Diel Says:

    Caminhada é ducacete. Eu adoro. Mas morro de vergonha de correr.

    Se eu me visse correndo na rua, morria de rir. Por isso, só caminho. :o)

  2. Sérgio Says:

    Isso me faz pensar… principalmente pela parte do cansaço; e cansaço me deixa pessimista.

Leave a Reply

e outros gerúndios