Das ocupações pós-modernas, parte 1: Traficante de placebo
Meu prezado leitor, você já teve aquela sensação de que falta algo na sua vida? Percebendo os sinais de que o tempo passa e a idade vai chegando? Anda procupado com o próprio peso? Se sente estressado em casa ou no trabalho? Você talvez seja um dos milhões de portadores da Desordem de Ansiedade de Déficit de Consumo e Atenção Social. É uma doença recém descoberta, mas estima-se que até 50% da população ocidental sofra deste mal em maior ou menor grau. Mas não se preocupe, caro amigo, por que esta doença já tem tratamento. Pesquisas recentes comprovaram a eficácia do princípio ativo avafynetyme HCT, conhecido comercialmente pelo nome Havidol (pronuncia-se rrévirol, como em “have it all”). Todos os pacientes submetidos ao tratamento reportaram melhora imediata, mesmo aqueles que nem sabiam que estavam descontentes. O medicamento liga-se ao recém-descoberto hormônio hedonina, que age no centro hedônico do cérebro e induz uma sensação de bem estar, tornando possível, enfim, alcançar a felicidade através da química. Havidol: quando mais não é o suficiente.
O Havidol é um projeto da australiana Justine Cooper (me lembrou do panexa, que é um pouco mais óbvio), e é tão próximo da realidade que quase não tem graça. Só pra citar um exemplo, um amigo me lembrou do caso da procaína, a moda farmacológica da classe dominante uns anos atrás. As pessoas pagavam cerca de cinco mil reais em um tratamento com anestésico odontológico (que, ao que me parece, custa 30 reais a dose em farmácias de manipulação). As injeções serviriam para rejuvenescer e aumentar a disposição, e o tratamento deve ser acompanhado de suplementos vitamínicos, musculação e uma dieta rígida. Posso estar muito enganada, mas o ponto aqui, meu caro leitor, é que se você segue uma dieta decente, faz musculação e toma vitaminas, independente de tomar qualquer tipo de remédio, você vai se sentir mais jovem e disposto, a não ser que tenham mudado toda a fisiologia humana de ontem pra hoje. Acho improvável.
O meu leitor é certamente uma pessoa inteligente, então eu nem preciso dizer que qualquer coisa que prometa ser a solução dos problemas da sua vida, incluindo aqueles que você nem sabia que tinha, é no mínimo suspeita. Em especial quando envolve qualquer espécie de controle, seja financeiro (facilmente identificável pela etiqueta de preço), ou, muito pior, controle político ou ideológico. E na verdade o controle financeiro não deixa de ser controle político, e vice-versa. Por exemplo, para se proteger da “ameaça do terrorismo”, um problema bastante vago que você nem sabia que tinha, basta aceitar a vigilância permanente (e continue contribuindo com seus impostos). É para o seu próprio bem, mesmo. Para impressionar as mina, compre esse carro fantástico; quando você termina de pagar as prestações, o carro já está ultrapassado e seus efeitos como pussy magnet se terão desvanecido (ainda serve como meio de transporte, mas quem é que usa um carro apenas como meio de transporte?), aí é só comprar outro. Para evitar o inferno, basta ir à igreja e fazer o que o pastor mandar, ele é uma pessoa iluminada e sabe mais do que você - e não se esqueça de deixar o dízimo. Afinal, que autoridade você tem para decidir sobre sua própria vida?

